O adeus do cantor Netinho: entre Milla e polêmicas

O adeus do cantor Netinho: entre Milla e polêmicas

Quem viveu os anos noventa certamente se pega sorrindo ao ouvir os primeiros acordes de ‘Milla’. Aquela melodia ensolarada acendia a energia de qualquer micareta e parecia desenhar o retrato perfeito de uma época de celebração sem amarras. Quando a notícia da morte do cantor Netinho foi confirmada nesta terça-feira, 13 de outubro, aos 60 anos, um sentimento coletivo de nostalgia e pesar tomou conta do público e dos bastidores do axé music. O artista enfrentava com bravura um linfoma não Hodgkin do tipo B, condição de saúde que infelizmente evoluiu para um quadro de falência renal e disfunção múltipla de órgãos. Por trás da dor da perda, contudo, fica a reflexão sobre uma trajetória marcada por aclamação popular retumbante, debates inflamados na esfera pública e uma despedida conduzida com admirável serenidade.

A trajetória inesquecível do cantor Netinho

Para entender a dimensão do impacto do cantor Netinho na música brasileira, é preciso fazer uma imersão na virada do século. Revelado ao grande público à frente da Banda Beijo, ele se transformou em uma das vozes mais carismáticas da Bahia. Com uma presença de palco contagiante, o baiano acumulou discos de ouro, lotou estádios de norte a sul do país e fez da micareta um fenômeno de massa. Músicas como ‘Beijo na Boca’ e ‘Preciso de Você’ já haviam consolidado seu talento, mas foi no final dos anos 1990 que sua voz alcançou um status quase mitológico nas rádios e na televisão, conforme relembrou a cobertura sobre a carreira no R7.

Ao longo dos anos, contudo, a vida do artista não foi marcada apenas por luzes e aplausos. Enfrentando sérios problemas de saúde na última década, inclusive derrames cerebrais e longas internações em Unidades de Terapia Intensiva, o cantor travou uma batalha pública pela sobrevivência. Paralelamente, suas declarações pessoais e seu alinhamento político recente acabaram dividindo opiniões e gerando debates acalorados nas redes sociais. A despeito de qualquer controvérsia, é inegável que a imagem do cantor Netinho permanece entrelaçada à era de ouro do axé pop brasileiro, uma época em que o ritmo baiano ditava o compasso das festas em todo o território nacional.

Quando o hit Milla se tornou pivô de disputa

Nenhuma canção traduz tão bem esse topo da glória quanto ‘Milla’. Lançada originalmente em 1996, a composição assinada por Manno Góes e Tuca Fernandes virou um hino atemporal. O refrão sobre a ‘Ilha do Sol’ entrou definitivamente no imaginário da cultura pop brasileira. No entanto, o hino festivo acabou no centro de um turbilhão político e jurídico anos mais tarde. Em 2021, durante uma manifestação política em São Paulo, o cantor interpretou a música no trio elétrico ao lado da ex-deputada federal Carla Zambelli. O episódio irritou profundamente Manno Góes, que declarou publicamente que não autorizava o uso da sua obra para fins partidários.

A briga escalou rapidamente e foi parar no Poder Judiciário. O compositor chamou o intérprete de ‘cantor golpista’ e acionou a Justiça contra a parlamentar para exigir a remoção dos vídeos das redes sociais, demanda que foi atendida pelos magistrados na época. Conforme detalhado em reportagem do G1, embora o caso tenha gerado dúvidas sobre proibições de show, os advogados esclareceram que o artista podia cantar a música em suas apresentações ao vivo, mas a reprodução da imagem e do áudio em conteúdos de cunho político dependia do consentimento autoral. O episódio ilustrou com clareza como a polarização política dos últimos anos acabou atingindo em cheio clássicos afetivos da nossa música popular.

A recusa dos holofotes no adeus definitivo

Se nos palcos a vida do cantor sempre esteve exposta ao julgamento da multidão, seus momentos finais revelaram uma busca profunda por paz e recolhimento. Diante do avanço silencioso do câncer no sistema linfático, o artista enfrentou os tratamentos longe das câmeras nos últimos meses de vida. Em um texto emocionante divulgado por sua assessoria de imprensa e destacado na mensagem divulgada pela CNN Brasil, o baiano deixou registrados seus sentimentos de gratidão antes de partir. Em vida, ele costumava repetir: ‘Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte’.

Respeitando esse desejo de intimidade, a família optou por realizar o velório e a cremação em uma cerimônia estritamente reservada a parentes e amigos próximos em Salvador. Nas redes sociais, a filha do cantor, Bruna Trindade, fruto de seu antigo casamento com a jornalista Mariana Trindade, homenageou o pai com uma foto de sua infância no colo dele. O gesto comoveu internautas e colegas do meio artístico, que prestaram solidariedade e destacaram a generosidade do baiano nos momentos de convivência nos bastidores das grandes turnês.

O legado do cantor Netinho e as marcas no axé

Cobrir os caminhos da cultura pop e do entretenimento nos ensina que artistas são figuras complexas, formadas por suas luzes radiantes e suas contradições humanas. O público que hoje chora a partida do cantor Netinho é o mesmo que pulou em blocos de carnaval, se apaixonou ao som de suas baladas e acompanhou com apreensão cada capítulo de suas batalhas médicas. A música tem esse poder singular de guardar a memória do momento exato em que fomos felizes ao ouvi-la.

Por mais que as disputas políticas e os embates nos tribunais tenham tentado reescrever o significado de ‘Milla’, a canção pertence à memória afetiva de milhões de brasileiros. Quando os acordes voltarem a soar em um rádio ou em uma festa de carnaval, a lembrança que permanecerá do cantor Netinho será a do jovem baiano de sorriso largo que ensinou o Brasil a cantar sobre uma ilha de luz e fantasia.

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