Quem viveu a efervescência do Carnaval de Salvador na década de 1990 certamente guarda na memória afetiva a imagem de multidões em transe atrás do trio elétrico, cantando em coro um dos refrões mais marcantes da música nacional. Na manhã desta terça-feira, 13 de outubro, essa trilha sonora que embalou gerações perdeu a sua voz principal. O cantor Netinho faleceu aos 60 anos na capital baiana, em decorrência de complicações causadas por um linfoma não Hodgkin do tipo B. A confirmação de sua partida deixa um sentimento inegável de nostalgia e encerra um capítulo fundamental da consolidação da axé music no cenário pop do país.
A voz que embalou multidões e acelerou o ritmo do axé
Antes de se tornar um gigante das micaretas, Ernesto de Souza Andrade Júnior era apenas um jovem baiano nascido em Santo Antônio de Jesus que trocou as salas de aula da faculdade de Engenharia Civil pelos palcos boêmios de Salvador. Sua grande virada aconteceu no final dos anos 1980, quando assumiu os vocais da Banda Beijo. Ali, emplacou hits inesquecíveis como “Beijo na Boca” e “Estrela Primeira”, mostrando um carisma elétrico que rapidamente transbordou as fronteiras da Bahia.
Foi na carreira solo, contudo, que o artista alcançou o ápice do estrelato massivo. Em 1996, o lançamento da canção “Milla” transformou-se em um fenômeno cultural sem precedentes. A música não apenas dominou as rádios de norte a sul do Brasil, mas ganhou regravações em múltiplos idiomas e permitiu ao músico lotar recintos históricos no exterior, como o emblemático Coliseu de Lisboa. Conforme detalhado na cobertura do G1, sua contribuição para a difusão da música baiana ajudou a desenhar o formato dos grandes carnavais fora de época que dominaram o entretenimento brasileiro durante anos.
A luta do cantor Netinho contra o câncer e o adeus sereno
A trajetória do músico também foi marcada por severos desafios de saúde ao longo da última década. Após enfrentar problemas complexos em 2013, ele encarou com coragem e transparência o diagnóstico de câncer no sistema linfático, revelado publicamente em março de 2025. O tratamento foi acompanhado de perto por fãs e admiradores no Hospital Aliança Star, em Salvador. Segundo informações publicadas pela Jovem Pan, o quadro evoluiu para uma insuficiência renal e falência múltipla de órgãos após uma recidiva da doença em 2026.
Apesar da gravidade do quadro clínico, a equipe do artista compartilhou uma mensagem profunda deixada por ele durante os meses de recolhimento. O baiano fez questão de expressar gratidão pelo carinho recebido ao longo de quase quatro décadas de estrada: “Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte”. Respeitando sua vontade expressa, as cerimônias de velório e cremação serão restritas estritamente a familiares e amigos próximos.
As comoções no meio político e artístico após a despedida
Nas redes sociais, as reações à morte do baiano refletiram a amplitude do seu impacto cultural e pessoal. Artistas do axé, colegas de trio elétrico e personalidades da televisão prestaram declarações emocionadas ressaltando sua energia contagiante. Paralelemante, sua transição para o ambiente político nos últimos anos — quando disputou eleições e manifestou posicionamentos conservadores explícitos — também rendeu homenagens de figuras públicas nacionais. Conforme relatado pela Veja, o senador Flávio Bolsonaro lamentou a perda em suas redes sociais, destacando que o baiano “levou a alegria e a música da Bahia para todo o Brasil e marcou gerações”.
Acima de qualquer divergência ou debate político, o dia de hoje é marcado pelo respeito à memória de um intérprete que soube traduzir em ritmo a vibração de uma era. O legado deixado nas caixas de som, nos blocos e nos discos continuará reverberando toda vez que os primeiros acordes de seus grandes sucessos começarem a tocar.



