Cantor Netinho morre aos 60 e deixa legado no axé

Cantor Netinho morre aos 60 e deixa legado no axé

Quem viveu o ápice dos micaretas e do Carnaval baiano nos anos 1990 certamente guarda na memória a energia contagiante de multidões cantando, a uma só voz, os primeiros acordes de "Milla". A notícia da morte de Ernesto de Souza Andrade Júnior, o cantor Netinho, aos 60 anos, em Salvador, interrompe essa trilha sonora afetiva e deixa um vazio imenso no cenário da cultura pop brasileira. Internado no Hospital Aliança Star, o artista não resistiu às complicações decorrentes de um linfoma não Hodgkin do tipo B, um diagnóstico que mobilizou correntes de oração e comoveu fãs em todo o país nos últimos meses.

Uma voz inconfundível que marcou o Carnaval dos anos 90

A trajetória de Netinho se confunde com a própria expansão do axé music para fora das fronteiras da Bahia. Nascido em Santo Antônio de Jesus e criado na capital baiana, ele deu seus primeiros passos no circuito carnavalesco em 1988 à frente da Banda Beijo, emplacando o hit "Beijo na Boca". Contudo, foi na carreira solo, iniciada em 1993, que seu nome se consolidou em definitivo no topo das paradas de sucesso de todo o Brasil.

O grande divisor de águas veio em 1996 com o lançamento do álbum ao vivo que eternizou a faixa "Milla". A canção virou um verdadeiro fenômeno de vendas e execução nas rádios, tornando-se um hino geracional que até hoje evoca memórias nostálgicas das festas praianas e trios elétricos. Para quem deseja reler e relembrar seus maiores sucessos, faixas como "Preciso de Você", "Menina" e "Barracos" mostram como o repertório do baiano ajudou a desenhar a identidade musical de uma era inteira.

A luta de saúde travada pelo cantor Netinho

Nos bastidores, a vida do artista também foi marcada por superações de saúde impressionantes ao longo dos anos. Em 2013, o público acompanhou apreensivo sua internação por sérias complicações vasculares e hepáticas, que resultaram em três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e um longo período de reabilitação até seu retorno aos palcos em 2017. Mais recentemente, em março de 2025, veio a descoberta do câncer no sistema linfático após episódios de dores intensas nas pernas.

Apesar de ter alcançado uma fase de remissão inicial, a doença reapareceu em 2026 com maior agressividade, exigindo nova rotina de quimioterapia. Segundo informações veiculadas pela Agência Brasil, o quadro evoluiu para insuficiência renal e falência múltipla de órgãos. Em nota divulgada por sua assessoria, o cantor partiu de forma tranquila, deixando mensagens de gratidão pelo afeto recebido de seu público durante toda a caminhada.

A complexidade médica e os custos de tratamentos avançados

A perda do artista traz à tona discussões profundas sobre a complexidade dos linfomas não Hodgkin, grupo que reúne dezenas de subtipos de tumores das células de defesa. Quando tratamentos convencionais de quimioterapia não apresentam a resposta esperada ou ocorrem recidivas precoces, a medicina oncológica busca alternativas inovadoras na terapia celular, como o tratamento CAR-T, que reprograma geneticamente as células imunológicas do próprio paciente para combater o câncer.

No entanto, conforme abordado em reportagem do portal G1 sobre tratamentos promissores contra o linfoma, essas tecnologias de ponta envolvem investimentos altíssimos, podendo custar entre R$ 2 milhões e R$ 4 milhões por paciente. Esse cenário reforça o debate permanente na oncologia sobre o acesso a terapias de alta complexidade quando a doença resiste aos protocolos tradicionais.

O carinho dos fãs e a celebração da obra do cantor Netinho

Nas redes sociais, a reação à partida de Netinho foi imediata e calorosa. Colegas de profissão, blocos carnavalescos e fãs de diferentes idades prestaram homenagens resgatando vídeos históricos de apresentações e relatos pessoais de como suas canções embalaram momentos felizes. Respeitando o desejo prévio do próprio músico, as cerimônias de despedida e cremação foram reservadas exclusivamente a familiares e amigos próximos na capital baiana.

Embora a despedida física seja dolorosa, a obra construída ao longo de quatro décadas permanece viva. O impacto cultural de sua voz na consolidação do axé music no mercado fonográfico nacional é um patrimônio que continua ecoando nos alto-falantes e na memória coletiva do país.

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