Se você cresceu assistindo TV nos anos 1990 e 2000, é praticamente impossível que não tenha cruzado com o talento dele. A voz é um elemento poderoso; ela se instala na nossa memória afetiva de um jeito tão profundo que, muitas vezes, nem precisamos ver a imagem para saber quem está falando. E foi com esse misto de nostalgia e profunda tristeza que o universo do entretenimento recebeu a notícia da partida de um gigante das cabines de gravação. O adeus silencioso a Figueira Júnior deixa um vazio enorme, daqueles que a gente sente no peito ao perceber que uma parte da nossa própria infância também se despede.
O encontro de despedida entre Bulma e o Androide 17
A dor da perda ganha contornos ainda mais tocantes quando olhamos para os bastidores e para as relações de amizade que esses profissionais constroem ao longo de décadas. Tânia Gaidarji, a icônica voz da personagem Bulma no Brasil, compartilhou uma homenagem que levou muitos fãs às lágrimas nas redes sociais. Ela revelou que recebeu a visita de seu grande amigo no Instituto do Coração, em São Paulo, apenas uma semana antes de sua partida, na quinta-feira que antecedeu uma cirurgia delicada pela qual ela passaria.
O relato de Tânia, repercutido por portais de entretenimento como o Agência GBC, traz um detalhe incrivelmente poético e doloroso. Naquele dia, por uma dessas ironias bonitas que a vida desenha, ele apareceu vestindo uma camiseta com a estampa do Androide 17. Ela, por sua vez, vestia uma blusa da Bulma. Eles sorriram, tiraram fotos e conversaram sobre o futuro. Ele estava esperançoso com um novo tratamento cardíaco que havia começado. Diante da triste partida, a dubladora desabafou com carinho e dor: “Por que não dei as Sementes dos Deuses para ele?”. É um sentimento compartilhado por todos nós.
A brilhante carreira de Figueira Júnior nos estúdios de dublagem
Para entender o tamanho desse artista, precisamos voltar no tempo. A trajetória de Figueira Júnior na dublagem brasileira começou de forma despretensiosa em 1987, quando ele realizou um estágio de dois meses no lendário estúdio Álamo, em São Paulo. O que era para ser apenas um aprendizado temporário transformou-se em uma carreira sólida de quase quarenta anos. Ele não era apenas um ator que lia falas; ele injetava alma em cada produção que dirigia ou em que atuava.
Ele emprestou sua voz a personagens diversos em produções cultuadas, de animações clássicas a filmes de grande sucesso comercial. Quem não se lembra do hilário Jim Levenstein, interpretado por Jason Biggs no primeiro “American Pie”, distribuído pelo estúdio Gábia? Ou de sua presença marcante em animes como “Yu-Gi-Oh!”, onde deu voz a Shadi, e “Fullmetal Alchemist”, interpretando Kain Fuery. Como destaca o portal O Vício, a versatilidade de Figueira o credenciou como um dos nomes mais respeitados do meio, capaz de transitar entre o drama absoluto e o humor mais escrachado com uma facilidade impressionante.
O legado imortalizado nas vozes de Fry e Androide 17
Mas se há dois trabalhos que colocaram o nome de Figueira Júnior de vez no panteão dos imortais da dublagem, esses são, sem dúvida, Fry e o Androide 17. Em “Futurama”, ele deu vida ao entregador de pizza atrapalhado que viaja mil anos no tempo. A dublagem de Fry exigia um tom de ingenuidade, cansaço e carisma que só Figueira conseguia entregar com tanta naturalidade. O público brasileiro abraçou o personagem justamente pela entrega vocal dele, que tornava cada piada ainda mais próxima da nossa realidade.
Por outro lado, o tom cínico, frio e incrivelmente magnético do Androide 17 em “Dragon Ball Z” e “Dragon Ball Super” mostrava o outro extremo de seu talento. Manter a pose de durão e, ao mesmo tempo, conquistar a simpatia dos espectadores é uma tarefa difícil, mas que ele tirou de letra. O portal Geekdama lembra que essa dualidade de papéis é o testemunho definitivo de um profissional completo, cuja falta será profundamente sentida em futuras produções da franquia.
Por que a voz de Figueira Júnior nunca será esquecida
Nas redes sociais, as homenagens não param de crescer. Colegas de profissão, estúdios de gravação e milhares de fãs prestam seus sentimentos à família — incluindo seu sobrinho Daniel Figueira, que também seguiu os caminhos do tio na arte de dublar. O clima é de consternação, mas também de profunda gratidão. Perder uma voz marcante é como perder um pedaço do nosso aconchego diário, daquele momento em que ligávamos a TV para esquecer os problemas do mundo real.
Fica a imagem de um profissional generoso, que sempre recebia os fãs com um sorriso largo nos eventos de cultura pop e que tratava sua arte com o respeito que ela merece. Ele se foi aos 60 anos, muito cedo, mas a sua voz continuará ecoando em nossas telas, nos lembrando de que os grandes artistas nunca morrem de verdade; eles apenas se tornam eternos através do carinho daqueles que continuam a ouvi-los.



