Imagine um projeto cinematográfico tão ambicioso e peculiar que passou quase duas décadas cozinhando nos bastidores mais turbulentos de Hollywood. Uma daquelas histórias que parecem destinadas a virar lenda urbana de estúdio, mas que, contra todas as probabilidades, finalmente ganhou vida nas telas. Estamos falando do mais recente e audacioso lançamento do streaming, uma obra que costura misticismo, gângsteres e literatura clássica em uma colcha de retalhos visualmente intrigante. Com uma proposta estética ousada e um elenco digno de noite de Oscar, a produção chega para dividir opiniões, mas é impossível ignorar seu magnetismo excêntrico.
O labirinto de duas eras conectadas pela obsessão
A narrativa do longa se desdobra em duas frentes temporais separadas por sete séculos, conectadas apenas pelo poder obsessivo da arte e da busca pelo divino. Na Nova York de 2001, às vésperas de um momento que mudaria o mundo, acompanhamos o escritor Nick Tosches — vivido com a intensidade habitual de Oscar Isaac. Ele é recrutado pela máfia russa e italiana para autenticar e, consequentemente, roubar o manuscrito original da “Divina Comédia”, supostamente escrito de próprio punho por Dante Alighieri. O percurso de Nick rapidamente se transforma em uma fuga violenta e psicológica que o leva até a Sicília.
Em paralelo, somos transportados para a Itália do século XIV, onde o próprio Dante (também interpretado por Isaac) enfrenta uma severa crise criativa e política. De acordo com a cobertura detalhada do AdoroCinema, esse contraste de épocas ganha uma roupagem visual invertida: enquanto a Idade Média resplandece em cores vibrantes, a Nova York contemporânea é filmada em um preto e branco melancólico e frio. É uma escolha de direção ousada que desafia o clichê de retratar o passado como algo sem cor e o presente como o auge da vivacidade.
De Johnny Depp à ressurreição por Julian Schnabel
O caminho para que essa história saísse do papel foi tortuoso. Os direitos de adaptação do livro homônimo de Nick Tosches, lançado em 2002, foram adquiridos por Johnny Depp há cerca de 17 anos, com a intenção original de que ele próprio estrelasse o longa. No entanto, o projeto afundou no chamado “inferno do desenvolvimento” das produtoras americanas, trocando de mãos e gavetas até ser resgatado pelo diretor Julian Schnabel. Conforme revelado pelo IGN Brasil, Schnabel trabalhou obstinadamente para manter viva a essência da obra de Tosches, que infelizmente faleceu em 2019 sem ver seu livro adaptado.
Após uma estreia divisiva no Festival de Veneza e uma breve passagem pelas salas de cinema dos Estados Unidos, a distribuição global foi assegurada pela gigante do streaming. O longa carrega aquela aura dos projetos de paixão de diretores consagrados, que não se importam em agradar ao grande público de imediato, mas buscam criar uma experiência sensorial marcante, livre das amarras do cinema comercial convencional.
O elenco estelar que brilha em Nas Mãos de Dante
Além da performance dupla de Oscar Isaac, o filme reúne nomes que parecem saídos de uma superprodução de ação, mas que aqui são submetidos a papéis muito mais densos e bizarros. Gal Gadot assume papéis duplos como Giulietta no presente e Gemma Donati no passado. Jason Momoa surge em uma faceta brutal como o capanga mafioso Rosario, enquanto Gerard Butler interpreta Louie e o implacável Papa Bonifácio VIII, responsável histórico pelo exílio do poeta. O veterano Al Pacino também marca presença como o enigmático tio Carmine.
Um dos maiores atrativos para os cinéfilos é a presença de Martin Scorsese. Além de atuar como produtor executivo, Scorsese assume um papel de destaque diante das câmeras como Isaiah, o sábio mentor de Dante Alighieri. Como pontuado pelo portal português SAPO, a escalação de Scorsese adiciona uma camada metalinguística fascinante à obra, já que ele próprio é uma espécie de mentor para gerações de cineastas modernos, incluindo o próprio Schnabel.
Mas afinal, vale o play em Nas Mãos de Dante?
A grande questão que divide os espectadores nas redes sociais é se a mistura de gêneros — que transita entre o suspense policial, o drama histórico e a metaficção espiritual — funciona como uma obra coesa. Para alguns críticos que assistiram ao longa em festivais, o resultado beira o caos narrativo, com atuações exageradas e cortes de cena abruptos. Por outro lado, há quem defenda que a loucura visual e o descompromisso com a linearidade são exatamente o que torna a produção uma das experiências mais originais do ano.
Não se trata de um filme para assistir de forma desatenta enquanto mexe no celular. Ele exige paciência e entrega do espectador para decifrar suas conexões temporais e poéticas. Em uma era de produções feitas sob medida por algoritmos, ver uma obra tão autoral e corajosa conquistar espaço no catálogo da maior plataforma do mundo é, no mínimo, um alento para os amantes do cinema de arte. Se você busca algo fora do comum, a jornada vale cada minuto de sua complexidade.
Outras noticias que podem te interessar:



