O universo das celebridades brasileiras, em especial aquela bolha reluzente que gravita em torno das mansões de Orlando, costuma operar sob um pacto silencioso de afeto e camaradagem automática. No entanto, quando a Justiça bate à porta com uma sentença definitiva sobre um crime de racismo, a maquiagem das redes sociais começa a derreter. Foi exatamente o que vimos acontecer esta semana, em um movimento rápido de ação, reação e, principalmente, de um constrangedor recuo estratégico por parte de grandes nomes da nossa televisão.
O impacto imediato do apoio a Rodrigo Branco
Tudo começou quando o empresário e diretor de TV Rodrigo Branco publicou um vídeo em seu perfil no Instagram. Condenado pela 6ª Vara Cível de São Paulo a indenizar a médica e campeã do BBB 20, Thelma Assis, em mais de R$ 76 mil por danos morais decorrentes de injúria racial, ele decidiu usar as redes para anunciar que não recorreria e que já havia efetuado o pagamento. Branco, conhecido por guiar e hospedar famosos na Flórida, tentou dar um tom educativo ao seu pronunciamento, pedindo desculpas também à jornalista Maju Coutinho — ambas atacadas por ele em uma nefasta transmissão ao vivo em 2020.
O que chamou a atenção, porém, não foi apenas o tom de arrependimento tardio de Rodrigo, mas a velocidade com que uma verdadeira corte de celebridades correu para consolá-lo nos comentários. Nomes como Xuxa Meneghel, Deborah Secco, Adriane Galisteu e Astrid Fontenelle deixaram mensagens afetuosas. Xuxa elogiou a “coragem e valia” do posicionamento; Deborah declarou seu amor e afirmou que “pessoas não são descartáveis”; Galisteu resumiu com um “é sobre isso”. O afago coletivo gerou revolta imediata na internet. Afinal, a rede social de um homem condenado por racismo havia se transformado em um ambiente de acolhimento VIP, enquanto a vítima, Thelminha, enfrentou seis longos anos de batalha judicial e foi praticamente ignorada por esse mesmo grupo de elite.
Não demorou para que a repercussão negativa atingisse proporções gigantescas nas redes sociais. Diante da enxurrada de críticas legítimas do público, o cenário mudou drasticamente em poucas horas. Em uma demonstração clara do peso da opinião pública, famosos apagaram o apoio a Rodrigo Branco e começaram a recalcular a rota para conter o estrago em suas próprias imagens públicas.
De “mero erro” a crime: a retratação de Astrid Fontenelle
Entre todas as reações, a de Astrid Fontenelle foi a mais emblemática e discutida. Inicialmente, a apresentadora havia escrito que acreditava que Rodrigo estava pronto para a “luta antirracista” e deu as boas-vindas a ele nesse caminho. O comentário gerou forte desconforto, inclusive dentro de sua própria casa. Como revelou posteriormente, seu filho Gabriel, de 17 anos, apontou que a declaração não havia sido de bom tom. O alerta familiar e o julgamento virtual implacável fizeram a jornalista refletir de forma profunda e rápida.
No dia seguinte, Astrid foi ao seu perfil do Instagram publicar um vídeo de desculpas, admitindo que errou gravemente ao chamar um crime de racismo de “mero erro”. A apresentadora também trouxe bastidores interessantes ao revelar que recusou cortesia do empresário no passado, afirmando que “não dá para perdoar”. Os detalhes sobre como Astrid Fontenelle pediu desculpas pelo comentário mostram o quanto o debate sobre o racismo estrutural e o pacto da branquitude ainda precisa avançar no meio artístico. Ela reconheceu que, mesmo se considerando uma mulher atenta e engajada, caiu na armadilha de proteger um amigo em detrimento da dor real sofrida pela vítima.
O pacto da branquitude e a reação firme de Thelma Assis
O caso expõe uma ferida aberta no show business nacional. Enquanto o empresário tentava emplacar a narrativa de que sempre esteve à disposição da Justiça — versão desmentida pelos fatos do processo, já que ele precisou ser citado por edital após não ser localizado por anos —, seus amigos influentes agiram como uma rede de proteção automática. Além de Astrid, a própria rainha dos baixinhos, Xuxa Meneghel também retirou seu apoio a Rodrigo Branco, deletando seu comentário e deixando de seguir o diretor de TV na rede social.
Do outro lado desse espetáculo midiático, a voz que realmente importa se fez ouvir com elegância e firmeza. Thelma Assis se pronunciou lembrando o desgaste emocional de carregar esse fardo por mais de meia década. “Esse impacto não pode ser desfeito com um simples pedido de desculpas na frente das câmeras”, declarou a médica, que anunciou que destinará o valor integral da indenização de R$ 76 mil para instituições de combate ao racismo. A atitude de Thelminha serve como uma aula prática de dignidade, contrastando com o desespero de celebridades que pareceram mais preocupadas em limpar o próprio feed do que em de fato compreender a gravidade do crime cometido.
A lição que fica deste episódio cansativo, mas extremamente pedagógico, é que o público não aceita mais a condescendência perfumada das redes sociais. O afeto seletivo que acolhe o opressor e silencia sobre o oprimido perdeu o prazo de validade. Que o recuo estratégico desses grandes nomes sirva não apenas como um freio de imagem, mas como um convite real a uma autocrítica muito necessária nos bastidores da fama.
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