A polêmica da IA no live-action de Moana ganha as telas

A polêmica da IA no live-action de Moana ganha as telas

Imagine entrar em uma sala de cinema esperando a brisa calorosa do oceano e a vivacidade de uma praia polinésia, mas acabar se deparando com uma estética que lembra um comercial de tecnologia cinzento e sem alma. Essa tem sido a incômoda sensação de quem correu para as salas de exibição nos últimos dias. A grande aposta da Disney para a temporada, o aguardado live-action de Moana, chegou cercado de grandes expectativas, mas o resultado nas telas abriu uma verdadeira caixa de Pandora sobre os limites da computação gráfica em Hollywood. Com uma recepção gélida por parte da crítica especializada, que amarga uma das piores aprovações recentes do estúdio no Rotten Tomatoes, o longa acendeu um alerta vermelho: a obsessão pela perfeição digital está, ironicamente, roubando a humanidade das telas.

Os bastidores tecnológicos e a quase-IA no live-action de Moana

Por trás das câmeras, a produção enfrentou dilemas éticos e práticos que parecem saídos de um episódio de ficção científica. Em meio ao desenvolvimento, surgiu a revelação de que a Disney cogitou seriamente utilizar inteligência artificial para manipular o rosto de Dwayne Johnson. A ideia, revelada em relatórios da indústria divulgados pelo CinePOP, era aplicar técnicas de deepfake para sobrepor as feições do astro ao corpo de seu dublê e primo, Tanoai Reed. O objetivo? Poupar o ator de exaustivas diárias no set de filmagem em alto-mar.

Embora The Rock tenha dado o sinal verde para o experimento tecnológico, o estúdio recuou de última hora. O receio de novos embates legais e a forte vigilância dos sindicatos de atores após as greves históricas em Hollywood falaram mais alto. A decisão de seguir pelo caminho tradicional parecia, a princípio, uma vitória para a integridade artística. Como detalhado pelo AdoroCinema, o ator acabou tendo que vestir um pesado traje de músculos artificiais de 18 quilos e uma peruca de mais de três quilos — que ficava ainda mais pesada quando molhada nas cenas aquáticas. No entanto, o esforço físico da equipe não foi suficiente para blindar o longa do estranhamento do público.

Um visual artificial que não agradou aos olhos do público

O paradoxo de toda essa história é que, mesmo rejeitando a inteligência artificial nos bastidores, o acabamento final do filme acabou sendo comparado exatamente à estética de imagens geradas por computador de forma automatizada. Críticos e especialistas apontam que a iluminação excessivamente uniforme, a paleta de cores desbotada e a artificialidade dos cenários digitais criaram uma atmosfera fria e distante do calor que consagrou a animação de 2016. Conforme análise publicada pela Folha de S.Paulo, o resultado visual do longa é tão plastificado que muitos profissionais afirmam que a produção “poderia perfeitamente ter sido feita por uma IA”, tamanha a perda de textura e de expressividade humana.

Essa falta de carisma afetou também os personagens secundários que tanto amamos. Figuras divertidas como o galo Heihei e o porquinho Pua, que na versão em desenho animado transbordavam personalidade em cada careta, foram transformadas em réplicas hiper-realistas de animais reais. O que deveria ser fofo ou engraçado acabou se tornando bizarro, gerando aquele incômodo efeito do “vale da estranheza”, onde o excesso de realismo digital afasta o espectador em vez de aproximá-lo. Nem mesmo a inegável entrega de Catherine Laga’aia, muito elogiada por sua performance vocal como Moana, conseguiu compensar a falta de brilho de um cenário que parece saído de um estúdio fechado com fundo verde.

O que a recepção do live-action de Moana diz sobre a saturação dos remakes

Assistir a esse lançamento nos faz questionar seriamente a estratégia de negócios que tomou conta das grandes produtoras. Refazer um clássico lançado há apenas uma década é um movimento arriscado que, com frequência, esbarra na falta de justificativa artística. Ao contrário de obras que ganharam novas versões após décadas — quando novas linguagens de fato podiam modernizar a narrativa —, reembalar uma história ainda tão fresca na memória coletiva soa meramente mercadológico.

A recepção morna do live-action de Moana deixa claro que o público está cansado de fórmulas requentadas e filtros digitais sem vida. A magia do cinema reside na imperfeição do toque humano, na expressividade do olhar e no calor das cores reais. Quando um estúdio de quase cem anos de história entrega uma obra de centenas de milhões de dólares que se assemelha a um produto genérico de tecnologia de geração de imagens, é sinal de que a rota precisa ser recalculada urgente. Afinal, para assistir a algo sem alma, não precisamos ir ao cinema; basta abrir um aplicativo de celular.

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