Laura Cardoso: a despedida da grande dama da TV

Laura Cardoso: a despedida da grande dama da TV

Dizer que a televisão brasileira perdeu uma parte de sua alma não é força de expressão; é a constatação de um silêncio que se impõe na nossa cultura. Na noite da última segunda-feira, a notícia de que Laurinda de Jesus Cardoso Baleroni nos deixou, aos 98 anos, trouxe um misto de melancolia e profunda reverência. Para quem, assim como eu, passou décadas acompanhando o desenrolar das nossas novelas, o brilho dos bastidores e a evolução da dramaturgia nacional, Laura Cardoso não era apenas uma atriz no elenco. Ela era a base, a pioneira que ajudou a pavimentar as bases da TV que consumimos hoje, desde os tempos heróicos da TV Tupi nos anos 1950.

Um adeus cercado de afeto na capital paulista

A manhã de terça-feira amanheceu cinzenta em São Paulo, mas repleta de flores e carinho na Funeral Home, um casarão histórico localizado no tradicional bairro da Bela Vista. Foi ali que familiares, amigos de longa data e colegas de profissão se reuniram para prestar as últimas homenagens à veterana. A cerimônia, que ocorreu das 8h às 14h, manteve um tom íntimo e respeitoso, organizado por sua filha Fátima Cardoso. Do lado de fora, a comoção se estendeu aos admiradores que faziam questão de se despedir de sua referência artística. Os detalhes do momento de luto e as homenagens prestadas podem ser vistos na cobertura especial do velório de Laura Cardoso na CNN Brasil.

Durante a despedida, a neta de Laura, Adriana Balleroni, compartilhou algumas palavras emocionantes com a imprensa. Ela relembrou a lucidez e a independência da avó até os últimos instantes, enfatizando que seu corpo cedeu ao tempo natural das coisas, mas seu espírito ativo permaneceu intocado. “Ela foi totalmente realizada. Essa é a lição que devemos tirar da vida dela”, disse Adriana. O sentimento geral é o de que, embora a dor da perda seja real, o legado que ela deixa serve de alento e inspiração para as novas gerações de atores.

O refúgio de Laura Cardoso em Itu

Além dos estúdios de gravação, onde operava verdadeiros milagres cênicos, Laura mantinha uma relação especial de paz e simplicidade com o interior de São Paulo. Durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19, a atriz escolheu Itu como o seu refúgio particular. Na charmosa propriedade rodeada por árvores, jardins amplos e animais de estimação, ela pôde desfrutar de um ritmo de vida mais suave, aproveitando a piscina e um afetuoso “cantinho da beleza” — um pequeno altar doméstico voltado para seus cuidados pessoais e maquiagens. Para conhecer um pouco mais sobre esse espaço de afeto, vale a pena ouvir e ler a reportagem sobre o refúgio de Laura Cardoso no G1.

Foi justamente nesse cenário bucólico que a veterana recebeu a equipe da TV TEM em 2021. Em um depoimento que traduz perfeitamente a sua paixão pelo ofício, ela declarou que entrava inteira em cada papel, estudando dia e noite para extrair o melhor de suas personagens. Essa entrega visceral explica por que figuras como a sofrida Isaura de Mulheres de Areia, a ranzinza Guiomar de A Viagem ou a doce Dona Carmem de Chocolate com Pimenta continuam tão vivas na memória afetiva do público brasileiro. Ela não interpretava; ela vivia.

O talento de Laura Cardoso que unia o trágico e o cômico

Se na televisão Laura arrebatou multidões com suas personagens marcantes, foi nos palcos de teatro que sua genialidade se mostrou em toda a sua complexidade técnica. Conforme pontuou a análise crítica da trajetória de Laura Cardoso no teatro pela Folha de S.Paulo, a atriz dominava como poucas a capacidade de transitar habilmente do trágico ao cômico e, num piscar de olhos, alcançar o patético. Essa maleabilidade dramática a consagrou como uma das profissionais mais completas do nosso país.

Iniciando sua trajetória artística no rádio aos 15 anos e passando por todas as transformações tecnológicas do entretenimento, ela manteve um frescor profissional raríssimo. Diante das câmeras ou no tablado, seu olhar expressivo e tom de voz marcante tinham o poder magnético de prender a atenção do espectador mais de uma vez. Laura nos ensinou que a grande arte não tem prazo de validade e que envelhecer no palco é, antes de tudo, um ato de resistência e amor supremo. O Brasil se despede fisicamente de sua estrela, mas a luz que ela acendeu na nossa dramaturgia jamais se apagará.

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