Quem assistiu à final da Copa do Mundo entre Espanha e Argentina esperava drama esportivo de alto nível, mas talvez não estivesse preparado para o absoluto caos de entretenimento que se desenrolou no gramado do MetLife Stadium. O tão falado Halftime Show da Copa 2026, curado de forma ambiciosa por Chris Martin, vocalista do Coldplay, tentou injetar uma década inteira de cultura pop em meros 11 minutos de espetáculo. O resultado final foi um liquidificador de nostalgia extravagante, escolhas de repertório altamente questionáveis e a nítida sensação de que, no meio de tantos astros, o futebol quase se tornou um mero detalhe secundário.
De Madonna ao K-pop: o turbilhão no gramado
A produção não economizou em apelo visual para garantir que a primeira grande apresentação de intervalo da história do torneio entrasse para a posteridade. A abertura ficou por conta de ninguém menos que Madonna. Surgindo triunfal em um carrinho de dunas após uma introdução pré-gravada em uma pista de patinação, a Rainha do Pop cantou seu clássico de 2000, “Music”. Para delírio dos saudosistas, ela dividiu o palco improvisado com os eternos craques brasileiros Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho. A energia estava lá em cima, mas durou pouco antes de o show mudar drasticamente de direção.
Em seguida, o maestro venezuelano Gustavo Dudamel regeu uma orquestra misturando músicos americanos e venezuelanos em uma versão instrumental do hino “Seven Nation Army”, do White Stripes. O detalhe divertido foi a participação especial da banda dos Muppets, com o clássico baterista Animal dando um show à parte de agitação. Foi um aceno claro ao público infantil e às famílias americanas, mas que causou certa estranheza na transmissão internacional.
Sem tempo para respirar, o fenômeno do K-pop BTS assumiu o controle do campo com roupas coordenadas em vermelho e preto, entregando uma performance milimetricamente coreografada do mega-hit “Dynamite”. O grupo esbanjou o carisma habitual e, de acordo com análises do portal The New York Times, foi um dos poucos momentos em que a coreografia preencheu de fato a vastidão do estádio, mesmo após uma rápida referência à tradicional celebração viking no campo.
O polêmico Halftime Show da Copa 2026 e o erro de Justin Bieber
Se a dinâmica vinha em uma crescente de energia, tudo desmoronou no momento mais divisivo da tarde. Apresentado pelos atores Jason Sudeikis e Brendan Hunt, devidamente caracterizados como seus personagens da série *Ted Lasso*, Justin Bieber subiu ao palco. O astro canadense, que vinha mantendo um perfil relativamente discreto nos palcos nos últimos tempos, optou por apresentar uma balada de tom religioso intitulada “Everything Hallelujah”.
A escolha de uma música lenta e introspectiva no meio de um show de intervalo hiperativo foi amplamente criticada nas redes sociais e por veículos como a NPR. Nas plataformas digitais, fãs e críticos apontaram que Bieber “esfriou” o clima festivo do estádio. A falta de sintonia com a vibração de uma final de Copa do Mundo foi um balde de água fria para os mais de 80 mil presentes que esperavam continuar dançando.
Felizmente, Shakira e o astro do afrobeats Burna Boy conseguiram recuperar parte do ritmo perdido ao apresentarem sua vibrante colaboração “Dai Dai”. Com muita dança e cores quentes, a cantora colombiana mostrou por que é a rainha incontestável de eventos esportivos mundiais. No entanto, o fantasma do playback assombrou a diva pop mais uma vez, gerando comentários de internautas que apontaram que seu microfone parecia estar completamente desligado durante os momentos de maior esforço físico.
Afinal, a yankeeficação do futebol realmente funciona?
O encerramento do espetáculo reuniu todos os artistas — incluindo bonecos clássicos da Vila Sésamo como Garibaldo, o Conde e a porquinha Miss Piggy — ao lado de Chris Martin e o coral infantil PS22 Chorus para cantar a inédita “Believe in Love”. O tom humanitário e focado em caridade, capitaneado pela organização Global Citizen, visava arrecadar fundos para a educação básica. No entanto, a pressa para amarrar tantas narrativas em tão pouco tempo gerou críticas contundentes da mídia especializada.
Veículos como o Financial Times destacaram que a iniciativa de trazer um modelo no estilo “Super Bowl” para o futebol desrespeita a dinâmica orgânica do esporte. O intervalo tradicional de 15 minutos acabou se estendendo por longos 27 minutos para que a gigantesca estrutura do palco pudesse ser montada e desmontada no gramado do estádio. Essa demora excessiva irritou profundamente os torcedores mais puristas e gerou duras críticas de astros da música internacional.
O lendário vocalista da banda The Cure, Robert Smith, não escondeu sua insatisfação nas redes sociais. Em uma série de postagens ácidas no Instagram, Smith ridicularizou as declarações do presidente da FIFA, Gianni Infantino, que havia classificado o show como um “espetáculo inovador”. Smith usou termos sarcásticos para criticar o que chamou de “política de pão e circo” promovida pela entidade esportiva, ecoando o sentimento de milhares de fãs que preferiam ver apenas a análise tática do jogo de futebol mais importante do ano.
Ao fim e ao cabo, a mega-apresentação provou que, embora seja possível reunir os maiores nomes da música global em um único palco, a harmonia artística não se compra apenas com orçamentos astronômicos. Resta saber se a FIFA insistirá nesse formato para os próximos torneios ou se o futebol voltará a reinar sozinho nos 15 minutos mais sagrados do esporte bretão.



