Adeus a Renato Machado: o adeus ao lorde do jornalismo

Adeus a Renato Machado: o adeus ao lorde do jornalismo

Se você cresceu acompanhando o ritual das manhãs brasileiras, certamente se lembra daquela voz pausada, elegante e carregada de uma ironia finíssima que parecia abraçar o telespectador. A notícia que tomou conta dos bastidores da televisão nesta quinta-feira nos deixa com um misto de saudade profunda e reverência. O jornalista, apresentador e eterno âncora Renato Machado morreu aos 83 anos no Rio de Janeiro, onde estava internado na Clínica São Vicente. Para quem trabalha cobrindo o mundo da comunicação, das celebridades e da cultura pop, falar dele é falar de uma era em que a sofisticação não era sinônimo de frieza. Ele era o exemplo máximo do profissional que sabia equilibrar o peso do noticiário com a leveza de quem sabe viver bem.

A parceria histórica de Renato Machado com as bancadas

Falar de Renato Machado é viajar no tempo para uma televisão que estava aprendendo a se reinventar. Ele ficou mais de quatro décadas na TV Globo, mas sua marca definitiva foi esculpida no comando do “Bom Dia Brasil”, entre 1996 e 2011. Ao lado de grandes parceiras, ele ajudou a quebrar a rigidez dos telejornais matinais. Ele trazia comentários afiados, interações espontâneas com correspondentes e uma paixão declarada por música clássica e alta gastronomia. Quem não se lembra do quadro “Imagens da Semana”, que encerrava as manhãs de sexta-feira embalado por grandes sinfonias? Era puro charme.

O que poucos sabem é que a veia artística de Renato vinha de muito antes de sua atuação no Jornalismo do Brasil ou na Globo. Ele começou a carreira como ator de teatro e chegou a atuar nas primeiras novelas da emissora carioca nos anos 1960. Essa sensibilidade artística moldou o comunicador que ele se tornaria: um profissional que enxergava a notícia com profundidade literária e carisma cênico. Nos bastidores, as lembranças são unânimes: ele era generoso, paciente com os mais jovens e, acima de tudo, um esteta impecável.

A mensagem de carinho enviada para Leilane Neubarth

A comoção entre os colegas de profissão foi instantânea, refletindo o carinho que ele plantou por onde passou. Um dos depoimentos mais tocantes veio de Leilane Neubarth, que dividiu a bancada do matutino com ele por sete anos. No Conexão GloboNews, Leilane, que recentemente anunciou sua transição para fora do jornalismo diário ao vivo, revelou detalhes emocionantes da última conversa que teve com o amigo de longa data.

Segundo Leilane, o jornalista havia enviado uma mensagem carinhosa na semana passada, tratando-a pelo apelido de sempre: “parceira”. Ele confessou que estava emocionado com a decisão dela e propôs que se encontrassem para almoçar assim que ele recebesse alta. Infelizmente, o destino não permitiu esse reencontro de despedida. Leilane, visivelmente abalada, brincou que costumava dizer que ele era o “sangue azul” do jornal, enquanto ela representava “o povo”. “Ele era um lorde, um verdadeiro príncipe”, relembrou ela com os olhos marejados, destacando que aprendeu com ele sobre vinhos, música e, essencialmente, sobre como saborear a vida.

Tadeu Schmidt e a lembrança de um editor generoso

Outra homenagem que ecoou fortemente nas redes sociais foi a de Tadeu Schmidt. O atual apresentador do Big Brother Brasil usou seu perfil para resgatar uma memória do início de sua jornada na televisão, quando assumiu o esporte do “Bom Dia Brasil”. Através de uma publicação tocante, Tadeu Schmidt prestou uma homenagem afetuosa ao antigo chefe e mentor.

Tadeu lembrou que, embora Renato fosse o decano da casa e um símbolo vivo de tradição e experiência, ele sempre estava de portas abertas para as novidades. “Lembro, com o coração cheio de agradecimento, que o Renato sempre topava as nossas ideias. Todas as novidades que a gente queria experimentar, todas as invenções e até as maluquices, ele estava disposto a embarcar”, revelou o apresentador. Essa generosidade em apoiar o novo, mesmo vindo de profissionais mais jovens, mostrava o quanto a genialidade do jornalista estava justamente na falta de vaidade e no desejo constante de ver a televisão evoluir.

O legado eterno de Renato Machado na televisão brasileira

A partida de Renato Machado marca o encerramento de um ciclo dourado do jornalismo nacional. Após sua saída definitiva da Globo em 2021, ele não parou. Ele encontrou no universo dos vinhos uma nova forma de dialogar com o público, compartilhando suas experiências de degustação e viagens com a classe que sempre o acompanhou. Essa paixão pela enologia era apenas mais uma faceta de um homem que se recusava a ser uma figura estática na bancada.

O que fica para nós, espectadores e eternos admiradores, é a imagem de um profissional que transformava a informação em uma conversa agradável de início de manhã. Seus ternos impecáveis de alfaiataria, seu óculos redondo característico e a doçura com que tratava seus colegas e o público são exemplos que transcendem as telas. Renato Machado nos ensinou que o jornalismo pode ter estilo, que a notícia pode ter alma e que o respeito pelo público se cultiva em cada palavra bem dita. Ele fará imensa falta, mas seu estilo e legado continuam vivos como referência eterna de elegância nas telas brasileiras.

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