O adeus a Benedito Ruy Barbosa: o mestre do Brasil rural

O adeus a Benedito Ruy Barbosa: o mestre do Brasil rural

Quem cresceu sintonizado na televisão brasileira certamente traz na memória o som de um berrante ecoando ao entardecer ou a poeira subindo de uma comitiva de peões cruzando a tela. Esse Brasil profundo, de paixões avassaladoras e disputas agrárias de proporções épicas, perdeu o seu grande arquiteto. Nesta terça-feira, fomos surpreendidos com a notícia da partida de um dos maiores contadores de histórias do nosso país, cuja obra moldou a identidade de gerações diante da tela pequena. Aos 95 anos, o dramaturgo nos deixou em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica, em São Paulo, mas sua assinatura poética e visceral permanecerá para sempre gravada na nossa memória afetiva.

Um Brasil profundo que chorou à beira do rio

A notícia da morte do dramaturgo, confirmada pelo Hospital do Coração (HCor), trouxe uma onda imediata de nostalgia e luto nas redes sociais e nos bastidores da TV Globo. Benedito estava internado há algumas semanas, enfrentando um quadro delicado de saúde, como reportado pela Veja. Ele vinha levando uma vida reclusa desde sua aposentadoria em 2020, quando encerrou seu contrato fixo com a emissora carioca. No entanto, o recolhimento físico nunca apagou o brilho de sua mente. Nos últimos anos, sua rotina predileta consistia em maratonar suas próprias criações no Globoplay — de acordo com relatos de suas filhas Edmara e Edilene, ele se emocionava profundamente assistindo novamente a tramas como ‘Terra Nostra’ e ‘Renascer’. Era um criador passional que muitas vezes chorava ao reler o que ele próprio havia escrito, revivendo as dores e alegrias de seus amados personagens.

O legado inestimável de Benedito Ruy Barbosa

Falar sobre a carreira de Benedito Ruy Barbosa é falar sobre a própria história da teledramaturgia nacional. Poucos autores conseguiram romper as barreiras do ambiente puramente urbano, que dominava as produções do Rio de Janeiro e de São Paulo, para trazer a poética dos caboclos, dos imigrantes italianos e das disputas agrárias para o horário nobre. Ele foi o autor que, de fato, apresentou o Brasil ao Brasil. Personagens rústicos ganhavam contornos shakespearianos em suas mãos: o ódio mortal entre as famílias Mezenga e Berdinazzi em ‘O Rei do Gado’, a saga histórica em ‘Os Imigrantes’ e a mística mútua de homem e natureza em ‘Pantanal’. Ele escrevia sobre a terra não apenas como um pedaço de chão para cultivo, mas como herança, paixão, identidade política e destino coletivo.

A doce vingança rústica na teledramaturgia

Os bastidores da carreira do autor também são repletos de reviravoltas dramáticas dignas de seus próprios folhetins de sucesso. No final dos anos 1980, a Globo rejeitou veementemente o projeto de ‘Pantanal’, considerando a produção rural inviável e cara para os padrões da época. Magoado com a recusa, Benedito levou a sinopse para a extinta TV Manchete. O resultado foi um terremoto histórico na audiência: em 1990, a saga de Juma Marruá e da família Leôncio desbancou a então líder absoluta, tornando-se um marco cultural incontornável. Décadas depois, a própria emissora carioca precisou desembolsar uma fortuna milionária estimada em cinco milhões de reais para readquirir os direitos da obra e produzir a aclamada releitura em 2022. Esse movimento de resgate de suas criações rurais apenas provou que o público brasileiro ansiava por reencontrar a simplicidade poética do campo.

Como o neto de Benedito Ruy Barbosa honra seu mestre

A continuidade de sua obra hoje está sob a responsabilidade de seu neto, Bruno Luperi, que assinou com maestria as novas versões de ‘Pantanal’ e ‘Renascer’. Em uma comovente homenagem nas redes sociais publicada logo após o falecimento do avô, Luperi escreveu: ‘Hoje meu professor foi descansar’. A declaração, repercutida pela Folha de S.Paulo, reflete a profunda ligação profissional e afetiva entre os dois, herdeiros da sensibilidade de contar histórias do interior do país. A Globo, inclusive, alterou sua grade de programação às pressas para exibir o documentário ‘Donos da História’, focado na trajetória marcante do autor. As novas gerações que acompanharam as recentes releituras de seus grandes folhetins, detalhadas pelo Gshow, mostram que as histórias de Benedito permanecem vivas. Diante da partida desse gigante, resta-nos sintonizar em suas reprises, aplaudir de pé e reconhecer que o país perdeu um de seus maiores intérpretes sociais.

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