Quem já se pegou cantarolando a trilha de abertura de uma grande saga familiar na TV sabe que o Brasil rural tem um cheiro, uma cor e, acima de tudo, um criador. Nesta terça-feira, o silêncio se fez mais pesado nos bastidores da televisão e nos lares de milhões de telespectadores. A notícia que tomou conta das redes sociais e das conversas de camarim carrega uma melancolia profunda: a perda de um dos maiores nomes da teledramaturgia nacional. O homem que transformou a poeira das estradas de terra e a força dos rios em poesia de horário nobre nos deixou, provocando uma onda de homenagens que mostram o quanto sua escrita moldou a nossa própria identidade cultural.
A despedida silenciosa de Benedito Ruy Barbosa
O anúncio oficial da equipe médica confirmou o que muitos já temiam nos bastidores. O renomado escritor faleceu no início desta terça-feira no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, onde enfrentava um quadro grave de insuficiência renal crônica. Aos 95 anos, o dramaturgo vinha lutando bravamente contra a condição nos últimos três anos, enfrentando internações recorrentes provocadas por infecções urinárias. Apesar da sua conhecida teimosia e força de gigante — características que sempre emprestou aos seus icônicos coronéis e peões —, o corpo cansou.
A dolorosa mudança do berrante para o asfalto
A saída das telas já havia acontecido de forma gradual, mas a mudança mais dolorosa ocorreu longe dos refletores. Dono de um refúgio histórico no interior paulista, Benedito Ruy Barbosa passou os últimos anos de vida de forma bem diferente daquela que sempre sonhou. Por conta da necessidade constante de tratamentos médicos, o autor trocou sua vida no sítio por um apartamento na capital paulista. Ele residia em Sorocaba, no seu amado sítio, local de onde tirava boa parte de suas inspirações bucólicas. No entanto, o agravamento da insuficiência renal crônica exigiu que ele ficasse mais próximo dos hospitais e do apoio integral de seus familiares.
A neta do escritor, a atriz Paula Barbosa, comentou em entrevistas recentes que o avô estava visivelmente mais fraco após a perda de sua companheira de vida, Marilene, em 2014. O isolamento no campo começou a cobrar seu preço e, mesmo relutante por amar a calmaria da terra, o criador de sagas rurais precisou se render ao asfalto paulistano para ter a assistência que seu estado de saúde exigia.
Globo altera grade para celebrar Benedito Ruy Barbosa
A comoção provocada pela partida do dramaturgo mobilizou imediatamente a alta cúpula da televisão brasileira. Para honrar a memória de quem deu à emissora alguns de seus maiores picos de audiência e prestígio, a Rede Globo preparou uma cobertura especial. Em um movimento rápido de grade de programação, a emissora vai exibir um programa inédito na TV aberta hoje. Trata-se do episódio dedicado ao autor na série ‘Donos da História’, originalmente produzido para o canal Viva em 2017 e que nunca havia sido transmitido para o grande público fora da TV por assinatura.
A homenagem irá ao ar logo após a exibição da Central da Copa, um horário estratégico para garantir que os órfãos de suas histórias possam se despedir revendo depoimentos emocionantes do próprio autor sobre como concebeu clássicos inesquecíveis. É o mínimo que a televisão poderia fazer por alguém que costumava chorar de emoção ao escrever as próprias cenas e que tratava seus personagens com a paixão de quem cria filhos de verdade.
O império rural que mudou nossa teledramaturgia
Falar de teledramaturgia no Brasil sem citar a revolução provocada por Benedito Ruy Barbosa é uma tarefa impossível. Quando ele começou a escrever, nos anos 1960, a televisão era essencialmente urbana, focada nos dramas dos apartamentos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ele, com a sensibilidade de quem cresceu em Gália cercado por lavouras de café e imigrantes, decidiu olhar para o interior. O resultado foram sagas arrebatadoras que pararam o país, como a versão original de ‘Pantanal’ em 1990 — que desafiou o monopólio da própria Globo ao ser exibida na Manchete —, e os clássicos ‘Renascer’ e ‘O Rei do Gado’.
As discussões sociais que ele trazia para a tela, como a reforma agrária, a preservação ecológica e o drama dos trabalhadores sem-terra, mostravam que suas novelas iam muito além do entretenimento passageiro. Ele colocava o Brasil real cara a cara com o espelho. Nos últimos anos, seu clã familiar manteve viva essa chama: as filhas Edmara e Edilene Barbosa, além do talentoso neto Bruno Luperi, assumiram a nobre missão de adaptar seus maiores sucessos para as novas gerações. O berrante agora se cala, mas as sementes que ele plantou na terra fértil da ficção nacional continuarão rendendo frutos eternos na nossa memória afetiva.
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