Hikaru Kurosaki: morre o eterno Jaspion aos 64 anos

Hikaru Kurosaki: morre o eterno Jaspion aos 64 anos

Se você fechar os olhos por um segundo e puxar pela memória aquele final de tarde do final dos anos 1980, certamente conseguirá ouvir o som metálico dos sintetizadores e a batida empolgante que anunciava a maior das aventuras intergalácticas. Para uma geração inteira de brasileiros, a hora do recreio ou o retorno da escola tinham um destino sagrado: a tela da extinta Rede Manchete. No centro desse turbilhão nostálgico, estava um jovem de cabelos desgrenhados, sorriso carismático e uma jaqueta vermelha inconfundível. Infelizmente, o detentor dessa memória afetiva tão viva nos deixou. O ator japonês Hikaru Kurosaki, eternizado como o destemido guerreiro espacial que combatia o temível Satan Goss, faleceu aos 64 anos na pacata cidade litorânea de Motobu, em Okinawa. A notícia, que reverbera com pesar no peito de milhares de órfãos da era de ouro do tokusatsu, foi confirmada pelo portal G1 e compartilhada nas redes por amigos próximos do ex-artista.

O legado imortal de Hikaru Kurosaki na TV brasileira

Nascido sob o nome de Seiki Kurosaki em Osaka, em 31 de janeiro de 1962, o futuro herói da infância brasileira não trilhou um caminho fácil até o estrelato. Sua paixão pelo cinema de ação e pelas artes marciais começou muito cedo. Aos 16 anos, ele ingressou na prestigiada Japan Action Club (JAC), renomada escola de dublês fundada pelo lendário ator Sonny Chiba. Foi lá que Hikaru Kurosaki lapidou suas habilidades físicas, atuando inicialmente como suit actor — o profissional oculto sob as pesadas fantasias de monstros e robôs gigantes em produções clássicas, como a versão japonesa de Homem-Aranha (1978) e Battle Fever J (1979).

Sua transição para papéis dramáticos ocorreu gradualmente, mas foi em 1985 que a Toei Company enxergou nele a energia ideal para capitanear sua nova e ousada aposta: O Fantástico Jaspion. Na pele do herói, Kurosaki esbanjava carisma e carnalidade, executando a grande maioria de suas próprias cenas de ação e lutas fora da armadura metálica. Embora no Japão a produção tenha tido um desempenho de audiência modesto, o destino reservava um fenômeno sem precedentes para o ator do outro lado do planeta. Em sua vida pessoal, o set de filmagens também trouxe amor: ele foi casado com a atriz Yoko Asuka (a vilã Farrah de Choudenshi Bioman), com quem dividiu a vida até o falecimento dela em 2011.

Como Angélica e Trem da Alegria transformaram a série em febre

Quando desembarcou na programação nacional em 22 de fevereiro de 1988, Jaspion não era apenas mais um enlatado estrangeiro. A série se tornou uma febre cultural instantânea e o principal pilar da invasão oriental na nossa televisão. Parte crucial desse estrondo deve-se ao contexto televisivo da época, brilhantemente resgatado pelo portal NaTelinha. A atração era exibida dentro do lendário Clube da Criança, programa que catapultou a carreira de Angélica, então uma jovem e magnética apresentadora de 14 anos. A sinergia entre o charme da loira e as acrobacias do herói japonês criavam uma audiência avassaladora, que frequentemente incomodava a soberania da Rede Globo nos finais de tarde.

Para além da televisão, a marca Jaspion espalhou-se de forma inédita. O grupo infantil Trem da Alegria captou o sentimento das ruas e, em seu cultuado álbum de 1989, lançou a faixa “Jaspion-Changeman”. A música se tornou hino obrigatório em festas infantis e escolas, tocando incansavelmente nas rádios brasileiras e sendo apresentada em palcos nobres como o Domingão do Faustão e o Xou da Xuxa. Jaspion deixou de ser apenas um programa de TV; virou bonecos de plástico, álbuns de figurinhas colecionáveis, mochilas escolares e até tema de circo. Uma mitologia pop moldada com carinho no imaginário brasileiro, repleta de personagens inesquecíveis como a androide Anri, a monstrinha Miya e o gigante guerreiro Daileon.

A vida simples que Hikaru Kurosaki escolheu longe dos holofotes

Apesar do tamanho desse sucesso no Brasil, Hikaru Kurosaki tomou uma decisão que surpreendeu muitos de seus admiradores na década de 1990. Após desentendimentos profissionais com seu mentor, Sonny Chiba, ele optou por abandonar em definitivo os holofotes do show business. Ele trabalhou brevemente como vendedor de motocicletas e gerente de lanchonete, mas encontrou sua verdadeira vocação na imensidão azul do oceano. Há mais de trinta anos, o eterno herói vivia de forma reservada na cidade de Motobu, em Okinawa, atuando como um respeitado instrutor e guia de mergulho submarino, tendo inclusive fundado a operadora Mother Earth.

Seu amigo de mergulho Masaki Sekiguchi, que confirmou seu falecimento no Facebook, destacou que Kurosaki morava sozinho e era uma figura extremamente querida e presente na comunidade local. “Nossa relação era baseada no apoio mútuo, simplesmente por estarmos ali presentes”, relatou Sekiguchi com profundo luto. O ator Hiroshi Watari, que interpretou o icônico aliado Boomerang na saga, também prestou suas homenagens públicas, expressando choque e gratidão por tudo o que compartilharam nos estúdios da Toei. Ao fechar este ciclo terrestre aos 64 anos, Kurosaki nos deixa órfãos de sua presença física, mas seu sorriso por trás da jaqueta vermelha continua eternamente guardado na memória coletiva de uma geração que aprendeu, graças a ele, que a justiça e a coragem sempre valem a pena.

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