Quem já teve a oportunidade de pisar na Bombonera em uma noite de Copa Sul-Americana sabe que aquele gramado não aceita timidez. O ar fica pesado, a torcida parece cantar dentro do seu ouvido e a tradicional catimba argentina transforma noventa minutos de futebol em um verdadeiro drama de televisão. Foi exatamente esse o cenário dramático do confronto do São Paulo contra o Boca na última terça-feira. No papel, um clássico gigante entre dois titãs do continente; na prática, uma batalha de nervos e sussurros de bastidores que terminou com um gosto amargo e muita polêmica fora de campo.
A noite em que o São Paulo contra o Boca parou a Bombonera
Durante os primeiros quarenta e cinco minutos, parecia que o roteiro seria perfeito para os visitantes. Esqueça aquela imagem do time brasileiro acuado, apenas se defendendo do ímpeto xeneize. O São Paulo de Dorival Júnior jogou com a personalidade de quem tem história para contar naquele gramado histórico. Sob o comando de um meio-campo muito bem postado, com Pablo Maia e Marcos Antônio controlando o ritmo, o Tricolor neutralizou o caldeirão de Buenos Aires por diversos momentos.
As melhores chances da primeira etapa foram todas brasileiras. Aos 16 minutos, em um cruzamento cirúrgico de Iago, Luciano testou firme no meio da área e exigiu uma defesa milagrosa do goleiro Álvaro Montero. Pouco depois, foi a vez de Jonathan Calleri desperdiçar uma chance clara após passe rasteiro do mesmo Iago, mandando a bola para fora. O futebol pune os desperdícios, e quem acompanha a rotina do esporte há anos sabe que perder oportunidades douradas em Buenos Aires costuma cobrar um preço caríssimo na etapa final.
O castigo veio no segundo tempo com Merentiel
A máxima do futebol se fez presente logo no início do segundo tempo. O Boca Juniors, empurrado por sua torcida fervorosa e sob as instruções do técnico Rodolfo Arruabarrena, voltou do vestiário com outra postura. Aos 6 minutos, após uma bobeira defensiva do São Paulo, Lautaro Blanco chegou à linha de fundo e cruzou rasteiro. O uruguaio Miguel Merentiel, velho conhecido do futebol paulista, precisou de duas tentativas para vencer Rafael e abrir o placar, decretando o triunfo por 1 a 0 para os donos da casa. No fim das contas, a derrota do São Paulo contra o Boca expôs a velha máxima de que o volume de jogo sem efetividade é um convite ao desastre.
A partir do gol, o time brasileiro perdeu a organização que havia apresentado até então. O desespero parecia bater à porta, os passes começaram a sair errados e o jogo físico dos argentinos começou a ditar o ritmo. Para piorar, a arbitragem do chileno Piero Maza passou a ser o centro das atenções, com decisões controversas que irritaram profundamente a comissão técnica tricolor. Maza chegou a expulsar o zagueiro Domingos Duarte de forma direta após um carrinho, mas o VAR salvou a noite de um desastre completo ao revisar o lance e anular o cartão vermelho injusto.
O desabafo de Calleri e o drama da suspensão
Mas o verdadeiro golpe no planejamento do São Paulo para o confronto de volta não foi apenas o placar adverso. O grande drama da noite envolveu o capitão Jonathan Calleri. De volta ao estádio onde foi feliz no início da carreira, o argentino viveu um reencontro tenso com sua “ex”. Ele minimizou as vaias da torcida local, afirmando na zona mista que é perfeitamente normal ser vaiado como adversário, mas o que realmente tirou o centroavante do sério foi o cartão amarelo recebido de forma inusitada durante a parada para hidratação.
Após uma breve discussão com Tomás Belmonte, o árbitro resolveu punir o atacante com o terceiro cartão amarelo na competição. Como os cartões acumulados não são mais zerados no mata-mata da Sul-Americana, Calleri está oficialmente suspenso do jogo de volta no Morumbis. Revoltado com a situação, Calleri contestou firmemente a arbitragem em suas entrevistas pós-jogo. O camisa 9 desabafou, dizendo que o juiz sabia de sua condição de pendurado e aplicou uma punição descabida: “O juiz sabia que eu tinha dois cartões amarelos, e tira um cartão amarelo nada a ver. Me deixaram fora de uma decisão”, disparou o jogador.
Além de reclamar do próprio cartão, o capitão são-paulino criticou a complacência de Piero Maza com o jogo violento e as divididas do Boca Juniors, pontuando que o árbitro deveria ter marcado mais faltas para controlar os ânimos e frear o ímpeto físico dos argentinos. Diante do desfalque de seu principal líder, caberá a Dorival Júnior quebrar a cabeça para encontrar um substituto à altura, com nomes como André Silva e Ferreira disputando a vaga no ataque tricolor.
Como reverter a desvantagem no Morumbis?
Se há um alento para a torcida são-paulina, é o histórico de superação do clube em competições de mata-mata dentro de seus domínios. A derrota pela vantagem mínima mantém a eliminatória viva. A análise tática do São Paulo mostra que o time tem plenas condições de reverter o resultado se conseguir repetir a excelente atuação coletiva do primeiro tempo em La Bombonera, mas com a pontaria mais calibrada diante das redes adversárias.
Na próxima terça-feira, o Morumbis promete ser um caldeirão ainda mais barulhento do que a Bombonera. O São Paulo precisará vencer por dois gols de diferença para carimbar sua vaga direta na semifinal, ou por um gol para levar a decisão para a marca da cal. Sem Calleri, o desafio assume contornos dramáticos, mas é justamente nas noites de adversidade que os grandes heróis improváveis costumam surgir no Morumbi. O espetáculo está armado, e a torcida tricolor já prepara a festa para empurrar o time rumo à virada.



