Quem viveu a era de ouro da televisão brasileira hoje amanheceu com um vazio difícil de explicar. Quando as luzes se apagaram na noite de segunda-feira, dia 17 de agosto, as telas do país inteiro perderam um pouco do seu brilho mais genuíno. A notícia que tomou conta das primeiras horas desta terça-feira nos pegou de surpresa, daquelas que, mesmo sabendo da inexorabilidade do tempo, nos recusamos a aceitar. Aos 98 anos, Laurinda de Jesus Balleroni, a nossa eterna e gigante Laura Cardoso, despediu-se dos palcos da vida por causas naturais, em São Paulo. Ela não era apenas uma atriz; era a espinha dorsal de um fazer artístico que praticamente nasceu com ela.
O choque com a morte de Laura Cardoso nos bastidores
A madrugada foi de vigília silenciosa nas redes sociais e de incredulidade entre aqueles que dividiram estúdios e coxias com a veterana. A confirmação de sua partida, como noticiado detalhadamente pelo portal G1, foi compartilhada por seu bisneto, Fernando Faria, em um post profundamente delicado no Instagram oficial da atriz. Desde então, uma onda de homenagens começou a inundar a internet, mas foi na televisão aberta que a dor ganhou voz de forma mais tocante.
No programa Bom Dia São Paulo, o veterano Tony Ramos não escondeu a emoção ao receber a notícia. Como bem destacou a cobertura do portal F5 da Folha, ele relembrou a convivência que vinha desde os tempos pioneiros da TV Tupi. Ele comentou que ela era uma mãe para ele em cena e declarou que ela era a nossa rainha, uma figura que emanava alegria e profissionalismo. Essa comoção, de fato, resume o sentimento de uma classe inteira, em uma repercussão que ecoou rapidamente por toda a imprensa nacional, incluindo os principais destaques da CNN Brasil. É a sensação de que uma era se encerra com a morte de Laura Cardoso, mas que seu exemplo permanece como norte para todos nós.
De retirante a indiana: os mil rostos de uma lenda
Dizer que Laura Cardoso era versátil é um eufemismo. Nascida em 1927 no icônico bairro do Bexiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses, ela começou sua trajetória no rádio ainda na adolescência, aos 15 anos. Naquela época, o microfone exigia uma presença vocal que Laura dominava como poucos. Quando a televisão foi inaugurada no Brasil nos anos 1950, lá estava ela, desbravando o novo meio no programa Tribunal do Coração, da TV Tupi. Ao longo de mais de oito décadas de carreira ativa, ela se tornou a atriz com o maior número de telenovelas em seu currículo — foram mais de 60 produções, além de dezenas de peças de teatro e filmes de cinema.
Quem não se lembra de sua marcante Isaura em Mulheres de Areia (1993), defendendo com unhas e dentes as atitudes da rebelde Raquel? Ou de sua doce, porém atormentada, Guiomar em A Viagem (1994)? Laura tinha a capacidade quase mágica de ir do humor mais rasgado ao drama mais denso em uma fração de segundos. Em Caminho das Índias (2009), ela deu vida à matriarca indiana Laksmi Ananda, uma personagem que até hoje vive no imaginário popular com suas tiradas impagáveis e rigidez folclórica. Seu último papel fixo na televisão foi na novela A Dona do Pedaço (2019), mas sua paixão pela atuação nunca arrefeceu: em 2025, ela pôde ser vista brilhando no curta-metragem Dona Rosinha, provando que a idade era apenas um detalhe diante de sua vitalidade cênica.
O legado imortal da dama da teledramaturgia
Para além dos mais de cem trabalhos que colecionou e dos inúmeros prêmios importantes de sua estante — como três prêmios Grande Otelo, dezenas de indicações e a distinta Ordem do Mérito Cultural —, o que Laura Cardoso deixa é uma lição de dignidade profissional. Ela pertenceu a uma geração que não buscava a fama fácil dos cliques e engajamentos rápidos, mas sim a verdade da interpretação e o respeito sagrado pelo público. Nas palavras de Miguel Falabella, que prestou uma de suas mais belas homenagens ao saber da triste notícia, Laura era gigante e compulsiva, detentora de um talento que mal parecia caber em sua estatura física delicada.
Seu velório, programado para ocorrer no tradicional bairro da Bela Vista, em São Paulo, promete ser um momento de despedida coletiva onde fãs, amigos e colegas de profissão prestarão suas últimas homenagens. Nós, que acompanhamos seus passos na tela e no palco, só podemos agradecer. Laura nos ensinou a rir, a chorar e a enxergar a humanidade em cada personagem, por mais complexo que ele fosse. Ela agora se junta à constelação dos grandes pioneiros que fundaram a identidade cultural do nosso país, deixando-nos com a certeza de que sua arte continuará ecoando em cada reprise, em cada memória e no coração de cada brasileiro.
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