Quem esteve no Barradão naquela noite fria e tensa de quinta-feira sentiu na pele que o futebol, às vezes, se recusa a seguir o óbvio. Enquanto os analistas mais céticos já davam como certa a eliminação baiana após o doloroso revés por 2 a 0 em Curitiba, as arquibancadas em Salvador pulsavam com aquela teimosia apaixonada de quem se recusa a entregar os pontos. No fim das contas, o que se viu foi um verdadeiro atropelo teatral, uma daquelas noites em que o roteiro da vida real supera qualquer ficção melodramática de novela das nove. O placar de 4 a 0 sobre o Athletico-PR não apenas garantiu uma vaga histórica, mas lavou a alma de uma torcida que transformou descrença em combustível.
O caldeirão do Barradão ferveu mais uma vez
Para quem acompanha o dia a dia do futebol e a energia que emana das arquibancadas baianas, sabe que o estádio Manoel Barradas tem uma mística difícil de ser traduzida em números frios. O time vinha de uma sequência desgastante de quatro jogos sem vencer, pressionado e ferido no orgulho. Ainda assim, o torcedor fez fila, lotou os arredores e entrou em campo junto com os jogadores. O clima era de final de campeonato, e a sinergia entre o gramado e as arquibancadas desenhou um espetáculo que há tempos não se via por lá. De acordo com a excelente análise do ge, o clube transformou o improvável em um hábito dentro de casa.
A impressionante mística do Vitória na Copa do Brasil
A reação começou logo aos 10 minutos de jogo. O gol de abertura, marcado por Renê após um rebote do goleiro Santos, acendeu um fogo que o Athletico de Odair Hellmann simplesmente não conseguiu apagar. O que se viu a partir dali foi um time paranaense tonto, incapaz de segurar a posse de bola diante de um adversário agressivo e taticamente perfeito, desenhado por Jair Ventura. Erick ampliou ainda no primeiro tempo com uma bela finalização de chapa, deixando o agregado empatado e o estádio à beira de um colapso de alegria. O jogo, detalhado na cobertura do UOL Esporte, mostrou que a noite pertencia inteiramente ao Leão.
A redenção de Renê e o destino do Vitória na Copa do Brasil
Se existe um personagem que sintetiza o drama humano que é o futebol, esse alguém é Renê. Criticadíssimo na partida de ida em Curitiba por ter carimbado a trave em um lance cara a cara com o goleiro, o centroavante viveu seu inferno astral particular no começo da semana. No entanto, o futebol dá chances rápidas para quem trabalha em silêncio. Com dois gols na partida de volta, o camisa 91 não apenas comandou a goleada como assumiu a liderança isolada da artilharia do torneio.
Na saída de campo, o atacante não escondeu a emoção e fez um belo desabafo sobre o papel crucial dos torcedores baianos na reviravolta. Em declarações reproduzidas pelo portal Terra, o atleta destacou que a força do elenco vem diretamente da energia das arquibancadas. “A gente merece. Estou feliz por tudo o que está acontecendo e pelos gols hoje. Não tem explicação, essa torcida é maravilhosa, 90 minutos no Barradão é muito tempo”, celebrou o jogador, lavando a alma após dias de cobrança intensa.
Marinho e o choro de quem joga com o coração
Se a noite já parecia perfeita com o terceiro gol de Renê, o destino guardou o golpe de misericórdia para um velho conhecido da torcida. Marinho, que retornou ao clube nesta temporada cercado de imensa expectativa, vinha enfrentando um longo jejum de 18 partidas sem balançar as redes. O atacante vinha sendo questionado, recebendo poucos minutos em campo e lidando com a impaciência de parte dos analistas.
Ao entrar no segundo tempo e marcar o quarto gol, decretando o 4 a 0 final, Marinho desabou em lágrimas. Emocionado, ele declarou seu amor eterno ao clube que o projetou nacionalmente: “Sempre quis voltar aqui e dar alegria para o torcedor. Sou torcedor desse clube. Se me colocarem até de goleiro, eu treino e jogo. Queria viver esse momento há muito tempo”. É o tipo de cena que nos lembra por que amamos esse esporte: a entrega visceral de um profissional que, antes de tudo, joga pelo amor às cores da camisa.
Jair Ventura desabafa e revela alívio nos bastidores
Quem também usou a entrevista coletiva para desabafar foi o técnico Jair Ventura. Alvo de duras críticas durante a semana pela sequência negativa que o time enfrentava, o treinador adotou uma postura franca, quase ácida, ao avaliar o resultado. Ele não escondeu que o sentimento principal no vestiário era de puro alívio após tamanha pressão externa.
“Não estou feliz, estou aliviado. Daqui a pouco tem o Flamengo e, se eu perder, já sou covarde, retranqueiro, burro, idiota, tudo de novo”, desabafou Jair, deixando evidente o peso mental que carrega no cargo. O treinador ainda aproveitou para dar uma leve alfinetada em seu colega de profissão, Odair Hellmann, técnico do Athletico, sugerindo que “estudar o Vitória é difícil, não somos um time de uma nota só”. Com a classificação garantida e mais R$ 4 milhões garantidos nos cofres, o clube agora aguarda o sorteio das quartas de final na próxima terça-feira, consolidando sua trajetória histórica na competição.



