A brisa do Mediterrâneo parece um pouco mais silenciosa neste fim de semana. A ilha de Capri, que sempre serviu de cenário para romances de cinema e canções eternas, perdeu o seu embaixador mais elegante. No último sábado, fomos surpreendidos com a notícia de que morre Peppino di Capri, aos 86 anos, após enfrentar com imensa discrição uma longa doença. O cantor e pianista, que fez o mundo brindar ao som do clássico ‘Champagne’, partiu em sua amada Villa Castiglione, deixando um vazio imenso no panorama cultural internacional. Para quem acompanha os bastidores da música e da cultura pop há décadas, sua partida não é apenas a perda de um artista genial; é o encerramento definitivo de um capítulo dourado da era dos grandes intérpretes da música leve.
A genialidade precoce de Giuseppe Faiella
Nascido Giuseppe Faiella em 27 de julho de 1939, o artista respirou música desde o berço em uma tradicional família caprese. Poucos sabem, mas seu talento prodigioso manifestou-se de forma assustadoramente precoce: aos quatro anos de idade, ele já tocava piano para distrair as tropas aliadas que estavam estacionadas na ilha durante a Segunda Guerra Mundial. Essa infância cercada por acordes e improvisos moldou o artista refinado que ele viria a ser. Embora tenha estudado piano clássico em Nápoles, foi nos palcos esfumaçados das boates locais de Capri e Ischia que ele encontrou sua verdadeira vocação, fundando o Duo Caprese com seu parceiro de longa data, o baterista Bebè.
O dia em que Peppino di Capri abriu os shows dos Beatles
No final dos anos cinquenta, Peppino teve uma daquelas sacadas que revolucionam mercados: por que não mesclar a doçura da melodia napolitana tradicional com o ritmo enérgico e moderno do rock ‘n’ roll e do twist norte-americanos? Foi assim que nasceram Peppino di Capri e os Rockers. O sucesso foi imediato e arrebatador. Ele não apenas introduziu o twist na Itália, vendendo mais de um milhão de cópias com sua versão de ‘Let’s Twist Again’, como também se tornou um ícone de estilo para a juventude da época. O auge desse fenômeno jovem aconteceu em junho de 1965, quando Peppino e sua banda foram escalados para abrir os históricos e únicos shows dos Beatles em solo italiano, passando por Milão, Gênova e Roma. Ele foi o último a pisar no palco antes dos Fab Four, consolidando sua relevância na cultura pop global.
Por que Champagne se tornou um hino geracional?
Se a carreira de Peppino di Capri já estava garantida na história do pop, foi na década de setenta que ele atingiu o status de lenda. Ele participou do Festival de Sanremo nada menos que 15 vezes, um recorde impressionante, saindo vencedor em duas ocasiões: em 1973, com ‘Un grande amore e niente più’, e em 1976, com ‘Non lo faccio più’. No entanto, nenhuma canção sintetiza melhor o seu estilo sofisticado e melancólico do que ‘Champagne’, lançada em 1973. A música, que narra as dores de um amor perdido sob o pretexto de um brinde solitário, ultrapassou fronteiras. Ela se tornou a trilha sonora oficial de festas, casamentos e reuniões íntimas em toda a Europa e na América Latina. O impacto foi tão duradouro que, décadas depois, em 2015, o rapper Gué Pequeno o convidou para colaborar em ‘Fiumi di Champagne’, apresentando o clássico para as novas gerações, como destacado na cobertura detalhada do portal Corriere della Sera.
O luto no mundo da música quando morre Peppino di Capri
A reação à sua partida foi imediata e carregada de uma profunda emoção nas redes sociais e nos bastidores do entretenimento. Grandes personalidades italianas fizeram questão de prestar suas últimas homenagens. O apresentador Carlo Conti lamentou a perda escrevendo: ‘Ciao Peppino, você nos fez dançar com o twist e nos apaixonar com suas canções’. Cristiano Malgioglio, emocionado, definiu a voz do artista como algo que ‘tinha cheiro de magia’. O cantor Renato Zero também expressou seu carinho, chamando Peppino de ‘um faro, um porto seguro’.
A cidade de Capri decretou luto oficial, reconhecendo que perdeu um de seus filhos mais ilustres e o seu embaixador mais elegante perante o mundo. De acordo com informações do site RaiNews, os preparativos para o funeral já foram organizados pela família — ele deixa os três filhos, Nico, Edoardo e Daria. A cerimônia fúnebre acontece na histórica igreja de Santo Stefano, a poucos passos da icônica Piazzetta de Capri, onde o artista costumava caminhar de forma simples e cordial.
A comoção que vemos hoje prova que, embora as luzes de Villa Castiglione tenham se apagado, o som do piano de Peppino di Capri continuará ecoando em cada brinde apaixonado ao redor do planeta. Como reportado pela agência de notícias ANSA, sua contribuição artística é tão monumental que existe um movimento no Ministério da Cultura italiano para incluir a canção napolitana moderna, da qual Peppino foi o expoente máximo, como patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO. É a consagração definitiva de um sonhador que mudou a música para sempre.



